Falta de estrutura do Judiciário é o principal gargalo da advocacia

Nos últimos 27 dias, a ConJur publicou uma série de entrevistas com os presidentes das seccionais da Ordem dos Advogados do Brasil. Todos foram abordados sobre os mesmos temas e apresentaram suas percepções. Em relação aos gargalos enfrentados pela advocacia em cada estado, a falta de estrutura do Judiciário foi a principal reclamação, citada por 13 líderes de seções — 48% do total.

Dentro desse tema, as reclamações são variadas. A mais repetida é a falta de varas, de servidores e de magistrados no primeiro grau de jurisdição. Outro problema, e que tem relação direta com a ausência de infraestrutura adequada do Judiciário, é a lentidão ao julgar.

“A Justiça estadual de primeiro grau está totalmente abandonada. A situação é caótica”, afirmou Paulo Brincas, presidente da OAB-SC. Seu colega de Ordem Ronnie Duarte, de Pernambuco, disse que no Judiciário do estado “faltam juízes e servidores, a estrutura física muitas vezes não é adequada”.

No Espírito Santo, a situação é tão dramática que Homero Mafra afirmou que o Judiciário de primeiro grau no interior é “uma miragem, um faz de conta”.

Mas não é apenas a falta de servidores que prejudica o atendimento ao jurisdicionado e à advocacia. Marcos da Costa, presidente da OAB-SP, criticou a ausência de juízes nos gabinetes dos fóruns durante o expediente. Já na Bahia, além da falta de estrutura, a imposição do processo eletrônico ainda é um problema. “Foi preciso digitalizar todos os processos e isso gerou inúmeros problemas burocráticos”, contou Luiz Viana.

O Norte do país também sofre com o processo eletrônico. Mas lá o entrave está na falta de rede de internet. Marcos Vinícius Jardim, Paulo Campelo e Alberto Campos — presidentes da seccionais de AC, AP e OAB-PA, respectivamente — lamentaram a precariedade digital em seus estados.

“Esse é um dos grandes entraves aqui no estado, acredito que por conta da distância. Aqui, em alguns lugares, a internet é ainda por rádio. São poucas empresas que ofertam”, resumiu Campelo. “Nós não temos condições de oferecer a internet estável, principalmente para comarcas mais longínquas”, complementou Campos.

Prerrogativas e honorários
O desrespeito às prerrogativas foi citado por 18% dos entrevistados. Fernanda Marinella, única mulher a presidir uma seccional no Brasil (Alagoas), afirmou que é um grande desafio é fazer “magistrados, promotores, delegados, policiais e outros servidores” entenderem que os direitos da advocacia “não são privilégios, mas prerrogativas conferidas constitucionalmente e pela lei”.

Seu colega gaúcho, Ricardo Breier, seguiu essa mesma linha quando disse que “as instituições não estão reconhecendo o advogado como o protagonista do sistema constitucional”. Segundo ele, isso acaba tomando muito tempo da seccional. Lúcio Flávio Paiva, da OAB-GO, sofre com esse mesmo problema, tanto que afirmou que a “violação às prerrogativas da advocacia continua sendo um problema diário”.

Uma das violações citadas diretamente é a jurisprudência dos Juizados Especiais do Rio de Janeiro. De acordo com Felipe Santa Cruz, presidente da seção fluminense da OAB, a ideia de que prejuízos ao consumidor podem ser “mero aborrecimento”, impedindo, assim, a concessão de indenização, destruiu essas instâncias.

Essas afrontas às prerrogativas também foram vistas no Tocantins. Walter Ohofugi Júnior denunciou que o levantamento de alvarás no estado tem sido dificultado pela Justiça. “Foi publicada uma resolução nova do Tribunal de Justiça do Tocantins que […] exige que o advogado junte o seu contrato firmado com o cliente para poder sacar seus honorários contratuais, quebrando assim a cláusula de sigilo.”

Já Andrey Cavalcante, da OAB-RO, alertou para as altas custas cobradas pelo Judiciário estadual: “Afronta os preceitos constitucionais da isonomia, do acesso à Justiça, da ampla defesa, além daqueles que proíbem o uso da taxa para fins meramente fiscais e o uso de tributo com efeito de confisco”.

Disponível em: www.conjur.com.br

Compartilhar

Outras postagens

Golpe do Falso Advogado

Alerta de Segurança: A Sofisticação do Golpe do Falso Advogado e o Uso de Inteligência Artificial

O Brasil vive um avanço significativo dos crimes digitais que exploram relações de confiança institucional. Entre as fraudes mais graves e recorrentes está o chamado golpe do falso advogado, prática criminosa que se vale da identidade profissional de advogados para induzir vítimas a realizar transferências financeiras indevidas.
O que antes se limitava a tentativas genéricas de estelionato evoluiu para um modelo altamente sofisticado de fraude, com uso de dados públicos reais, engenharia social avançada e, mais recentemente, tecnologias de inteligência artificial.

Reforma Tributária do Consumo e Operações Imobiliárias: o Regime Específico de IBS e CBS à Luz da EC 132/2023 e da LC 214/2025

Reforma Tributária do Consumo e Operações Imobiliárias: o Regime Específico de IBS e CBS à Luz da EC 132/2023 e da LC 214/2025

A Reforma Tributária do consumo, inaugurada pela Emenda Constitucional nº 132/2023 e regulamentada, em grande medida, pela Lei Complementar nº 214/2025, introduziu um modelo de IVA dual no Brasil, mediante a criação do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), da Contribuição Social sobre Bens e Serviços (CBS) e do Imposto Seletivo (IS).
Entre os diversos aspectos inovadores, destaca-se

Relatório de desempenho

Gestão Estratégica de Pessoas: O Pilar Inegociável da Vantagem Competitiva e Sustentabilidade no Setor Jurídico Moderno

O setor jurídico, por sua natureza, sempre foi orientado por regras, prazos e a busca incessante pela excelência técnica. Tradicionalmente, escritórios de advocacia concentraram seus esforços na capacidade técnica (o hard skill supremo), na eficiência processual e na satisfação pontual das demandas dos clientes. No entanto, essa concentração, muitas vezes, negligenciou o elemento mais dinâmico e insubstituível de qualquer organização de sucesso